Resenha: quando tu finalmente entende Woman in Chains
Tem música que tu ouve desde moleque só porque gostou mesmo. Tava tocando, era bonita, a voz era foda, só que tu nunca foi atrás do que ela tava dizendo. É tipo aquele tio que todo mundo acha engraçado, mas ninguém nunca prestou atenção de verdade no que ele tava falando. Woman in Chains do Tears for Fears foi isso pra mim durante uns dez anos ou mais. Melodia linda, o dueto com a Oleta Adams entrando e roubando a música na cara dura, e eu ali feliz, achando que era só um som bonitão de 1989.
Aí um dia tu tá em casa e escuta uma conversa que não era pra tu escutar. Não vou dar nome nem endereço, mas o roteiro é o mais batido do Brasil: mulher chega pra falar de divisão de tarefa doméstica e o cara em vez de responder sobre tarefa doméstica, abre um PowerPoint mental e começa a palestrar sobre tudo que não tem nada a ver. Fala sobre delegar função, fala de como era antigamente, fala do que a mãe dele fazia, fala de tudo menos de pegar a merda da vassoura. É a manobra mais antiga do mundo: transformar um pedido simples numa mesa redonda filosófica até a outra pessoa cansar e ir lavar a louça sozinha. Não é burrice, é técnica. E é uma técnica manjada demais.
Foi ouvindo isso que deu o estalo sobre a música. Tem um verso ali que diz "it's under my skin but out of my hands" (isso me incomoda, mas não posso controlar). É essa a sensação de quem tá do lado de fora da porta escutando. Tu vê, tu entende, tu sabe o nome do que tá acontecendo e não tem absolutamente nada que tu possa fazer com isso.
O Roland Orzabal explicou na época que a música era sobre opressão de mulher e sobre homem que sufoca o próprio lado feminino, e é por isso ela é chamada até hoje de hino feminista. Mas a parte que me pegou não foi a explicação, foi o timing. A música passa metade do tempo tranquila, calma, quase pedindo licença pra tocar. Daí lá pelos três minutos e meio, entra a bateria de porrada e a coisa explode. É o som mais honesto possível pra esse tipo de situação: anos de coisa engolida e de repente a casa inteira ouve.
Só que a explosão da música dura dois minutos e vai embora. Na vida real não tem essa. A pessoa continua ali, calcula que é ruim com o cara e pior sem o cara. E o cálculo dela não é burro, é matemática de quem não tem pra onde ir. Então tu fica ali do lado de fora, sabendo o nome de tudo, com a música tocando na cabeça e sem poder fazer porra nenhuma. Tô deixando esse registro aqui pra quando ela duvidar de si mesma, lembrar que alguém viu e achou aquilo tudo um absurdo completo.

Comentários
Postar um comentário