Resenha: o lobo do &TEAM trocou a floresta pelo salão de baile


Voltei da delegacia e não tenho tempo pra explicar, então vou ser honesto de entrada: quando vi que o &TEAM ia continuar nessa lore de lobo, dei uma broxada. Lobo em k-pop é tipo violão em sertanejo universitário, aparece tanto que perdeu o sentido. Mas aí chegou Mark on Me e eu tive que virar o cão arrependido, porque esses moleques resolveram fazer o lobo deles vestir smoking e frequentar teatro de verdade.

A faixa título é aquele tipo de pop que parece simples na primeira passada e vai adicionando camada conforme tu repete. O refrão gruda sem ser invasivo, que é uma arte que muito grupo maior não domina. Tem gente que gruda com gancho de pesca enferrujado, e essa música aqui gruda com velcro bom, cola e solta na hora certa. A produção tá limpa, sem aquela síndrome de quem precisa encher cada segundo com um efeito diferente pra provar que trabalhou feito condenado. Isso deixa o grupo respirar, deixa a melodia circular, e quando o refrão abre é recompensa, não sobrecarga.

 


Agora, o clipe. Cara. BAILARINAS DE BRANCO. O GRUPO TODO DE PRETO. Isso é o truque mais velho do figurino, preto e branco é o contraste que existe desde antes da eletricidade, e mesmo assim eles fizeram tão bem que eu fiquei de boca aberta igual otário. As minas fazendo balé entre os membros, todo mundo impecável, o &TEAM se movendo como se tivessem nascido dentro daqueles ternos. Tem grupo que veste roupa cara e parece que tá de fantasia de formatura. Esses aí vestiram preto e pareceram que o preto é que foi feito pra eles. O naipe do negócio é o tipo que não fala alto, ele só fica ali, quietinho, te humilhando.

E funciona com a música porque Mark on Me inteira é sobre deixar marca, posse, cicatriz de amor, aquela coisa toda dramática de quem quer ser lembrado. O preto e branco reforça isso: a marca é o único traço de cor num mundo de duas tonalidades. Fui poeta demais aqui.

Conceitualmente é coeso, visualmente é bonito, e eu odeio admitir quando conceito e execução casam porque estraga minha ideia de que tudo é marketing vazio. Mas aqui não dá, aqui casou.

Minha única ressalva, porque o Coelho não lambe bota de graça: as bailarinas são cenário. Lindo cenário, cenário de altíssimo nível, mas cenário. Elas dançam ao redor, ornamentam, somem. Num clipe inteiro sobre marcar e ser marcado, as mulheres são as únicas sem marca registrada, e deve ser porque não quiseram pagar um extra nos direitos de imagem que eu tenho certeza que a YX Labels achou que ninguém ia perceber. Não estraga nada, mas eu anotei no caderninho.

E tem o detalhe da lore: o prólogo chamava O Lobo Que Amava o Vermelho, cheio de clima de conto de fadas sombrio, e aí o clipe entrega o lobo domado de terno, comportado, dançando balé clássico. Ou eles tavam enganando a gente com o prólogo, ou a coleira foi bem amarrada. Interpretação livre, mas eu gosto mais da segunda opção, porque um lobo de smoking que dança bonito é infinitamente mais interessante que um lobo uivando pra lua genérico.

Veredito: Mark on Me é o &TEAM acertando a mão no que eles já faziam bem e finalmente vestindo a ambição pra fora. Não é revolucionário e não vai reescrever o gênero, mas é competente com estética, elegante com vaidade, e no cenário atual onde muito grupo entrega hype e esquece a música, entregar música bonita com clipe bonito já é quase um ato de resistência. Então marcou sim, ficou bem marcado.


 
 

 

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